Pacientes com perda capilar muitas vezes se surpreendem com os motivo de suas quedas. Alguns se assustam e parecem não acreditar nos motivos reais destes problemas. Há os que tentam desviar a atenção dos médicos para outras possíveis causas, enquanto outros não querem mudar seus hábitos quando se deparam com a verdadeira razão de suas perdas capilares. Tenho certeza que nestes casos os pacientes gostariam de ouvir de seus médicos que há outros motivos para seus problemas.
Só para ilustrar, vou contar três histórias que exemplificam bem estas situações:A primeira de um paciente homem, na casa dos seus 32 anos, com queixas e exame físico típicos de calvície genética, exceto pelo fato de ele não conhecer ninguém que fosse calvo na família. Realizei ainda mais dois exames complementares, entre eles o tricograma que reforçaram o meu diagnóstico. Expliquei para o paciente que os genes da calvície, no caso de hereditariedade, precisam ser combinados de maneira a sinalizarem às células do nosso corpo que estas devem se comportar de forma diferente do normal levando à calvície. Conseguentemente, para terem chegado até ele estes genes podem ter vindo através das gerações e, infelizmente, se combinaram em suas células. O resultado foi que, apesar do sucesso com o tratamento para a calvície genética (que ele não deixou de fazer), o paciente ainda insiste em acreditar que seu quadro não é genético.
A segunda história é de uma paciente que teve seu cabelo totalmente destruido pela química capilar. Eram cabelos quebradiços, enfraquecidos, sem elasticidades, sem brilho e com aspecto de queimado pelo sol. Química que ela dizia fazer há anos e que certamente não era o motivo do seu problema. Na história clínica insistia em reforçar um quadro de estresse importante que ela havia passado recentemente e que acreditava ser o motivo de sua queda. Fui constatar possível queda por estresse e não encontrei nenhum sinal da mesma, apenas os danos causados pela química. Depois de muita conversa consegui convencê-la de que seu quadro não era causado por estresse e sim pela química que vinha usando.
Por último a história de uma paciente que sabia que seus hábitos de aplicar produtos à base de pomadas ou cremes controladores de penteado estavam fazendo mal ao seu couro cabeludo causando inflamações e infecções na pele desta região. O resultado eram cicatrizes sem cabelos com 0,5 a 1cm nas áreas onde previamente haviam os abscessos destas infecções. Apesar de eu ter insistido na não aplicação dos produtos que ela vinha usando como orientação principal para o sucesso de seu tratamento a paciente insistia em dizer que não ficaria sem utilizá-los de maneira nenhuma e me pediu uma prescrição que pudesse amenizar o quadro.
Estes exemplos apenas ilustram situações correntes de um consultório de medicina capilar. Poderia descrever muitos outros, mas me limitei a três para dizer que na medicina em geral há pacientes que não querem acreditar em seus médicos ou não querem ouvir as reais causas de seus problemas. Isto porque lidar com determinadas realidades faria com que tivessem que mudar radicalmente seus hábitos.
Precisamos entender que o trabalho médico é investigativo, exige conhecimento e aplicação científica. Diagnósticos são feitos com metodologia e muitas vezes podem apresentar dados que reforçam as informações da história clínica ou mesmo surpreender. Apesar disto, o médico não está ali para dizer apenas o que o paciente quer ouvir. O paciente não procura um médico para ser enganado ou para que ele lhe agrade dissimulando sobre o problema. Infelizmente vejo crescer grandemente o número de pacientes que prefere não acreditar na realidade a recebê-la. Será que você também é assim? O que você quer ouvir do seu médico sobre sua perda capilar?
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