Há um
consenso popular e perigoso que costumo discutir muito com meus pacientes. O de
que o qualquer pessoa que começa a desenvolver a calvície vai se dar bem se
tomar o medicamento do amigo, do irmão ou aquele que viu na revista, internet e
TV.
A
procura pela solução fácil e rápida é sempre tentadora e muitos pacientes me
reportam histórias como: Ah, estava dando
certo para ele, achei que poderia dar certo para mim também fui na farmácia,
comprei e passei a usar. Ou então, vi
na TV que o ator tal está usando e que está dando certo para ele. Há outros
que relatam: Fiz uma pesquisa na
internet, entrei em alguns foruns de discussão e descobri que o medicamento “x”
é o melhor do mercado e comecei a usar.
Infelizmente
a calvície mexe com a auto-estima e entendo que muita gente prefira ficar
buscar alternativas de uma forma que se sinta mais seguro. É natural do ser
humano se incomodar e esconder aquilo que mais o aflige. Amigos e irmãos
costumam ser um apoio nesta hora e, na ignorância do mal que podem causar, porém
com toda boa vontade, colaboram dando dicas para ajudar na solução do problema.
Os meios
de comunicação (incluem-se aqui TV, revistas e internet), também informam e
eventualmente podem conter informações que ajudam. Porém, na maioria das vezes
as informações mais confundem do que ajudam instigando a compra de produtos que
serão utilizados sem o devido acompanhamento de profissional especializado.
Tendo
meu pai como médico, lembro-me de um episódio em sua clínica, quando eu ainda
tinha 7 anos que muito me marcou e teve peso importante na minha escolha por
fazer medicina. Um dia, entre uma consulta e outra, entrei em sua sala e
perguntei sobre o que ele tinha tratado no paciente que acabara de sair. Ele me
respondeu: Foi um problema do coração.
Com o comportamento típico da criança perguntei: E o paciente antes deste que acabou de sair? Ele me respondeu com a
tranquilidade que eu tanto admiro em sua pessoa: Um problema do coração. Minha curiosidade ficou ainda mais atiçada
sobre os dois pacientes em questão: O
mesmo problema do coração? Ele foi objetivo: Sim, o mesmo. Na hora associei as respostas e completei: Ah! Então foi fácil, foi só você receitar o
mesmo remédio para os dois. Sua resposta me intrigou e acho que me motiva
até hoje a tratar meus pacientes como se fosse a primeira vez que vejo o caso
deles: Não filho, mesmo pacientes que tem
doenças iguais necessitam muitas vezes de tratamentos diferentes.
Aprendemos
isto na medicina como regra para que não venhamos a cometer erros. Há realmente
protocolos médicos que podem ou devem ser seguidos, mas a realização de um
diagnóstico bem feito e o bom senso na escolha do tratamento são elementos que
vão sendo incorporados ao dia-a-dia do estudante de medicina, assim como na
experiência profissional que este médico gradativamente vai adquirindo ao longo
de sua vida de trabalho. É por isso que nenhuma indicação de amigo, parente,
TV, revista ou internet deve compor uma decisão por tomar medicamentos sem
prescrição médica.
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